O hormônio do estresse, alto na hora errada, faz o corpo estocar gordura justamenteonde ninguém quer — e a má noite é uma das causas mais silenciosas. Segunda de quatrocolunas sobre sono e peso.

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Por Dr. Lesme Dariel Masso Cisneros — CRM 27440

Tem um tipo de paciente que me tira o sono a mim também, de tão frequente: a pessoa que comepouco, se movimenta, faz um esforço honesto — e continua com aquela barriga que não cede. Ela olhapara a alimentação como se ali estivesse a culpa inteira, e não raro se pune com dietas cada vez maisradicais. Quando eu investigo a rotina, encontro quase sempre a mesma dupla: estresse alto e sonoruim. E, no meio dos dois, um hormônio que explica boa parte do mistério — o cortisol.
Na semana passada, falei aqui de como a má noite aumenta a fome. Hoje quero mostrar o outro lado:mesmo que você não coma a mais, dormir mal pode fazer o corpo guardar gordura. E o vilão dessahistória não é bem um vilão.
O cortisol não é o inimigo — o horário dele é
O cortisol tem péssima fama, mas ele é essencial. É ele que nos coloca de pé pela manhã, desperto eprontos para o dia. O problema não é o cortisol existir; é ele estar alto na hora errada. Naturalmente,ele sobe ao amanhecer e vai caindo ao longo do dia, chegando ao fundo à noite, para nos deixar dormir.A noite mal dormida quebra esse ritmo: mantém o cortisol elevado justamente quando ele deveria estarbaixo. O corpo passa a noite — e o dia seguinte — banhado num hormônio de alerta que não deveriaestar ali.
E cortisol cronicamente alto tem duas consequências que atrapalham diretamente quem queremagrecer. A primeira é que ele favorece a resistência à insulina: o corpo passa a lidar pior com oaçúcar do sangue, e insulina alta é um sinal bioquímico de “guardar energia”, não de “queimar”. Asegunda é mais visível no espelho: o cortisol tem uma preferência incômoda pela gordura abdominal,aquela que se deposita ao redor dos órgãos — a mais perigosa para o coração e o metabolismo. É porisso que a pessoa estressada e mal dormida costuma reclamar exatamente da barriga, mesmo comendopouco. Sob estresse e sem descanso, o corpo entra em modo de estocar.
O círculo que se retroalimenta
O mais cruel é que estresse e sono formam um ciclo que gira sozinho. O estresse do dia atrapalha osono à noite; a noite mal dormida eleva o cortisol; o cortisol alto deixa a pessoa mais ansiosa e reativano dia seguinte, que dorme pior de novo. É uma roda que, uma vez girando, se sustenta. Muita gente tenta quebrar esse ciclo pelo lado da comida, cortando calorias, quando a alavanca de verdade está nodescanso e no manejo do estresse.
E aqui vale um alerta que dou sempre: cortar comida drasticamente é, ele próprio, um estressor para ocorpo. A dieta radical pode elevar ainda mais o cortisol, piorando exatamente o que se queria resolver.Não é raro ver a barriga insistir justamente em quem está se martirizando de fome. O caminho, quasesempre, é o oposto do desespero.
Como baixar o cortisol da hora errada
A notícia boa é que dá para reeducar esse ritmo. Algumas medidas simples ajudam a devolver o cortisolao lugar certo:
Crie um ritual de desaceleração à noite. O corpo não desliga no talo. Meia hora de luz baixa, semtrabalho e sem tela, sinaliza ao cérebro que é hora de o cortisol cair.
Respeite um horário de dormir. Dormir e acordar sempre nos mesmos horários é o que maisorganiza o ciclo hormonal — mais do que qualquer suplemento.
Movimente-se durante o dia. Atividade física regula o cortisol e melhora o sono à noite. Mas evitetreinos muito intensos perto da hora de deitar, que fazem o contrário.
Cuidado com cafeína e álcool no fim do dia. O café da tarde tardia mantém o alerta ligado; oálcool até dá sono, mas fragmenta a noite e desregula o cortisol.
Não confunda disciplina com privação. Comer de verdade, com equilíbrio, estressa menos ocorpo do que a dieta-castigo.
Na próxima semana, vou trazer um estudo que deveria estar em toda dieta: o que acontece quandoduas pessoas comem exatamente igual, mudando só as horas de sono. O resultado explica por quedormir pouco pode fazer você perder o tipo errado de peso. Por hoje, fica o recado: se a sua barrigainsiste mesmo com você comendo pouco, talvez o ajuste não esteja no prato — esteja no travesseiro.
Dr. Lesme Dariel Masso Cisneros (CRM 27440) é médico formado pelo Instituto Superior de Ciências Médicas deSantiago de Cuba, com especialização em Medicina Geral Integral (equivalente à Medicina de Família e Comunidade).Há 18 anos na profissão, é diretor clínico do Hospital IMAS, em Guarujá (SP), com atuação no tratamento deemagrecimento e no uso seguro de medicações análogas de GLP-1. Este texto tem caráter educativo e não substitui aconsulta médica individual.
FONTES (para citar/verificar)
Privação de sono ↑ cortisol vespertino/noturno e ↓ sensibilidade à insulina — Leproult & VanCauter (1997); Spiegel et al., The Lancet (1999)
Cortisol, resistência

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