Durante muitos anos, o parcelamento foi associado à compra de bens duráveis, como geladeiras, televisores e móveis. Eram produtos de alto valor, adquiridos para uso por vários anos. Hoje, porém, um novo comportamento chama a atenção: brasileiros estão parcelando refeições.
Os mais de 1,3 milhão de pedidos parcelados no iFood em apenas dois meses revelam muito mais do que uma nova funcionalidade financeira. O número é um retrato da realidade econômica enfrentada por milhares de famílias. Quando alimentos, itens de consumo imediato, passam a ser financiados, o crédito deixa de ser uma ferramenta de planejamento e passa a funcionar como um mecanismo de sobrevivência.
Na prática, isso significa que muitas pessoas estão comprometendo a renda futura para pagar uma necessidade do presente. O problema se agrava quando entram em cena os juros do cartão de crédito, fazendo com que uma refeição consumida em poucos minutos continue sendo paga por semanas ou meses.
O fenômeno também evidencia a perda do poder de compra. Com inflação acumulada em diversos setores, aumento do custo de vida e orçamento familiar cada vez mais apertado, recorrer ao parcelamento para comprar comida deixa de ser uma escolha e passa a ser, para muitos, a única alternativa disponível.
Mais do que um dado do mercado de delivery, o crescimento desse tipo de operação acende um alerta sobre a situação financeira dos consumidores brasileiros. Afinal, quando até o almoço precisa caber na próxima fatura, o debate deixa de ser sobre tecnologia ou conveniência e passa a ser sobre renda, emprego e qualidade de vida.




